Animações

por Leandro Cacossi

“Nada se cria, tudo se copia”: a famosa frase, usada pelo apresentador Chacrinha para falar sobre televisão, pode também ser aplicada a muitos outros meios. Seja na música, no cinema, no rádio ou na publicidade (apenas para citar os exemplos mais óbvios), velhas idéias e velhos produtos são sempre reutilizados por realizadores.

Num momento em que a tecnologia permite que tenhamos acesso a coisas praticamente esquecidas em nossas memórias, referências ao passado são revisitadas cada vez com mais intensidade. A tecnologia também proporciona a praticamente qualquer indivíduo que se torne um realizador audiovisual. E, assim, cada um vai buscar suas próprias referências e remixar (ou recriar) em cima delas.

Programas e filmes humorísticos e desenhos animados são bons exemplos de como é possível colocar em prática novas criações utilizando-se de antigas figuras e produtos.  Apesar de terem ganhado um maior volume nos últimos tempos, os remixes são bastante comuns em obras audiovisuais deste tipo há tempos.

Um exemplo é o desenho animado abaixo: Pink-A-Rella. Produzido em 1968, coloca a Pantera Cor-de-Rosa numa história com ares de Cinderela, cujo príncipe é Pelvis Parsley.

Os Simpsons já tiveram um Especial de Dia das Bruxas remetendo à clássica história da Grande Abóbora de Charlie Brown.

Family Guy levou o personagem Chris Griffin ao videoclipe oitentista da música Take On Me, da banda A-Ha.

Por fim, a série Frango Robô, que utiliza bonecos para recontar histórias de personagens clássicos da animação e do cinema.

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As Crônicas de Nárnia: um remíx da Bíblia?

Por Fernando Geronazzo

As Crônicas de Nárnia é uma série de sete livros de fantasia, escrita pelo autor irlandês Clive Staples Lewis (conhecido simplesmente como C.S.Lewis). É a obra mais conhecida do autor, e a série é considerada um clássico da literatura infantil, tendo vendido mais de 120 milhões de cópias em 41 idiomas. Escrito por Lewis entre 1949 e 1954, e ilustrado por Pauline Baynes, as Crônicas de Nárnia foram adaptadas diversas vezes, inteiramente ou parcialmente, para a rádio, televisão, teatro e cinema.

Ao ser adaptada para o cinema, o primeiro filme da série, “O leão a Feiticeira e o guarda roupa’, deixam claras a analogia da obra com aspectos da cultura cristã. O interesse de Lewis, cristão protestantes declarado, em “transmitir”, ou simplesmente “remixar” elementos próprios da mensagem cristã pode ser notado com clareza em obras como “Mero Cristianismo”.

A referência aos seres humanos como “filhos de Eva” explicita essa relação entre Nárnia e a Bíblia. No filme da Disney também aparece esse simbolismo. Além dos tradicionais temas cristãos, a série usa caracteres da mitologia grega e nórdica, bem como os tradicionais contos de fadas.

De acordo com Carlos Vargas, professor de Introdução à Filosofia, das Faculdades Integradas Santa Cruz, mestrando em Epistemologia na PUC-PR, o armário “mágico” simboliza a presença oculta e misteriosa do mundo espiritual, que, embora ilimitado, pode ser de alguma maneira contido no nosso mundo natural. “Nárnia é enorme, mas cabe dentro do armário naquele quarto abandonado. O Céu é ilimitado, mas parece poder ser contido, de alguma maneira, nas almas dos santos. É na parte inexplorada da casa, naquele quarto abandonado, que se abre o mundo de Nárnia. É na escondida Nazaré, sem grande valor social, que o Verbo divino nasce” destaca o professor em um de seus artigos.

A descoberta de Nárnia por Lúcia, a menor e mais inocente dos quatro irmãos, simboliza o fato de que é a pureza que permite perceber as realidades espirituais, o que é também é simbolizado pela virgindade de Maria, mãe de Jesus. Este aspecto é confirmado pelo padre e professor Donizete José Xavier, professor de teologia dogmática da Faculdade de Teologia da PUC-SP, que na ocasião do lançamento do filme, chegou a promover debates e reflexões entre os estudantes de teologia e jovens de sua paróquia.

O fato de que os outros irmãos não acreditaram no relato de Lúcia sobre o que viu em Nárnia simboliza a descrença daqueles que não tiveram a experiência da “revelação cristã”. A discussão entre o Professor e Suzana sobre a “lógica” da mensagem de Lúcia simboliza as discussões que os cristãos enfrentam sobre as relações entre “fé e razão”. O estilo pedagógico e racional do professor, de grande clareza e eficiência na argumentação, simboliza a apologética cristã do próprio C.S. Lewis.

A perseguição da feiticeira contra os seres humanos em Nárnia simboliza a perseguição do mundo contra os cristãos. O ódio que ela possuía contra os seres humanos simboliza o ódio infernal do Diabo, segundo a tradição cristã.

Ainda para o professor Vargas, “a neve permanente que cobre Nárnia durante o governo da ‘Feiticeira Branca’ simboliza a frieza e a esterilidade do pecado na vida sem Cristo”. A sedução de Edmundo pela Feiticeira Branca é comparável ao mitos do pecado original contido no livro bíblico do Gênesis.

As brigas infantis entre os quatro protagonistas antes de assumirem seriamente a missão em Nárnia simboliza as disputas entre os apóstolos antes de Pentecostes, assim como as rixas cristãs provocadas por desamor. A comoção e o arrependimento que Pedro, Suzana, Edmundo e Lúcia sentem ao encontrar Aslam, o leão, pela primeira vez no filme simbolizam a consciência do pecado e o arrependimento que o cristão sente diante do Cristo, o que já antecipa algo do juízo final.

A falta de som no encontro entre Edmundo arrependido e Aslam simboliza o isolamento da consciência arrependida na confissão: os pecados confessados só interessam ao próprio pecador e a Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo que esse, às vezes, seja simbolizado pelo sacerdote – os outros irmãos, ou cristãos, não precisam ficar sabendo.

O acolhimento de Edmundo após sua traição simboliza a volta do pecador arrependido, com a qual os seus irmãos se alegram depois da orientação de Aslam para que não falassem sobre os pecados passados. A busca que os outros irmãos fazem para encontrá-lo simboliza a busca da ovelha perdida relatada nos Evangelhos.

A pergunta que Aslam faz a Pedro sobre sua crença nas profecias de Nárnia simboliza a importância da fé do apóstolo Pedro e da Igreja como um todo nas profecias do Antigo Testamento e do próprio Cristo.

A Lei de Nárnia simboliza a Lei de Moisés do Pentateuco, os primeiros cinco livros da Bíblia. A Feiticeira Branca, nesse aspecto, simboliza o diabo que exige para si o sangue dos pecadores. O momento do sacrifício simboliza a “hora das trevas”. O Leão que se deixa sacrificar simboliza o “Messias” inocente que morre pelos pecadores.

A agonia pela qual o Leão passa na véspera do sacrifício simboliza a agonia de Jesus Cristo no Getsêmani. Suzana e Lúcia, nesse episódio, ao consolarem Aslam, simbolizam os apóstolos que estavam mais próximos de Jesus naquele momento: João, Pedro e Tiago.

A pedra que se quebra na mesa da montanha simboliza a cortina rasgada do templo com a morte de Jesus, isto é, simboliza o fim da vigência das leis de Moisés para aqueles que morreram e ressuscitaram com Cristo, conforme a narrativa bíblica da paixão. A ressurreição do Leão simboliza a ressurreição de Jesus Cristo. A presença de Suzana e Lúcia ali na ressurreição de Aslam simboliza o testemunho da ressurreição do Cristo que foi dado por Maria Madalena.

O afastamento de Aslam no final simboliza a ascensão de Cristo. O fato do leão não ser “domesticado” simboliza a “liberdade de Cristo em relação às instituições religiosas. A mensagem dada pelo professor a Lúcia após os créditos, de que ela poderá voltar a Nárnia quando menos espera, simboliza a mensagem profética da volta de Jesus em um momento que ninguém poderá prever, conforme a fé dos cristãos.

No filme, estese muitos outros aspectos são ressaltados, como o momento em que uma das garotas chora com o leão morto em seus braços, analogia clara da famosa Pietà, de Michelangelo.

Deste modo, As Crônicas de Nárnia são um exemplo claro de “remixagem” de elementos de outras obras literárias e culturas, neste caso, a tradição cristã contida nos relatos bíblicos.

The Daily: inovação ou mais do mesmo?

por Douglas Meira

The Daily é uma revista eletrônica da News Corp desenvolvida exclusivamente para o iPad, da Apple. A publicação foi anunciada em fevereiro passado por um Rupert Murdoch ainda distante das páginas policiais, com um posicionamento totalmente voltado para a inovação. Cada edição traz 100 páginas com notícias gerais, esportes, fofocas e celebridades, opinião, arte e vida, além de aplicativos e jogos.

“Acreditamos que o diário será o modelo de como as histórias serão contadas e consumidas na era digital”, disse o CEO da News Corp na ocasião.

Dizeres como “criado todos os dias do ano com conteúdo original para o iPad”, “feito do zero por alguns dos melhores profissionais” e “inteligência, atratividade e entretenimento” ainda figuram no website da revista. “Novos tempos demandam um novo jornalismo” aparece em destaque como a manchete de um jornal.

Seta à direita clicada, mais uma ‘novidade’ na tela. “The Daily tem a profundidade e a qualidade de uma revista, mas é entregue diariamente com um jornal e atualizado em tempo real como na web.”

Ainda no website, a frase “Read it. Play it. Watch it. Listen to it” chega a intimidar pela imperatividade e parece conter os quatro mandamentos que a News Corp e a Apple gostariam que os leitores adotassem.

Finalmente, “todo dia é novo” intitula um pequeno texto que deixa claro qual é a desta empreitada de Murdoch. “Chega de aplicativos que são apenas websites reciclados ou fotos de revistas. The Daily foi criado para oferecer a você vantagens de um jeito que só o iPad pode trazer”, diz a página web, antes de oferecer leitura gratuita por duas semanas.

Steve Jobs agradeceu. “A News Corp está redefinindo a experiência de notícias com o diário”, disse o CEO da Apple.

Remix

A verdade é que, como a própria News Corp admite, o Daily não é a invenção de nada novo. Em última instância, é o produto de um processo evolutivo envolvendo mídia e internet e que não para de acontecer. No meio desse caminho, surgiu o Daily – como também surgiram a incorporação do acesso à internet ao telefone celular; e a reforma gráfica da Folha de S.Paulo visando tornar o jornal uma “televisão impressa”, no final da década de 1980. Entre inúmeros outros exemplos.

A influência de outras mídias e “casos de sucesso” fazem surgir novas ideias. O Daily é só um dos primeiros exemplos de publicações eletrônicas que tiram proveito das possibilidades de um tablet PC. Certamente haverá outras semelhantes ou ainda melhores. E como o tempo não para, é muito provável que daqui a alguns anos uma nova reinvenção nesse tipo de mídia seja necessária.

A capa do Daily já evidencia o que se chama de “remixagem” (combinar ou editar materiais existentes para produzir algo novo). Ela segue o padrão das revistas impressas tradicionais, como a emblemática Time Magazine. Isto pode limitar um pouco a inovação proporcionada pela nova revista eletrônica da News Corp, mas ela não deixa de chamar a atenção por suas qualidades editoriais e tecnológicas.

Afora a combinação multimídia com textos, fotos, vídeos, podcasts, hiperlinks e gráficos dinâmicos (o que já vimos antes na internet), são basicamente dois os diferenciais do Daily. Um deles é o próprio iPad. Não fosse a mobilidade do tablet, a publicação seria algo que já poderia ter sido pensada há muito tempo. O outro destaque fica para a possibilidade de compartilhar com amigos no Facebook, Twitter e outros canais colaborativos as notícias e artigos partindo diretamente do conteúdo original de uma revista.

Em tempo:

• Pelo menos nos Estados Unidos, assinar The Daily, disponível para download na App Store, é mais barato do que muitas revistas tradicionais.

• Nos últimos dias, o Daily ganhou uma nova versão.

A era dos remixes

Por Noelle Marques
Segundo a definição de Kirby Ferguson, remix é a combinação ou edição de uma material já existente para formar algo novo.
Olhando ao nosso redor, é fácil encontrar muitos remixes. Um dos mais utilizados hoje em dia é a rede social Facebook, que utilizou elementos de uma rede social já existente para criar uma nova. Só que muitas vezes o remix pode ser considerado plágio, o que resultou em uma batalha judicial que Mark Zuckerberg enfrenta até hoje.
Em algumas animações também é possível encontrar elementos de outras obras, mas com um sentido totalmente novo, como é o caso dos Simpsons e do Shrek, que utilizam situações externas, como política, celebridades, entre outras, e criam cenas hilárias.
Durante a faculdade, em um dos trabalhos da matéria “Percepção da imagem e som” tive que mudar o sentido de uma imagem, apenas utilizando uma trilha sonora. A tarefa foi difícil, mas eu e mais duas colegas conseguimos realizar.
Escolhemos diversos filmes da Xuxa Meneghel, voltados exclusivamente para o público infantil, e editamos com base em uma música da cantora americana Britney Spears, em sua fase sensual e provocante.
Xuxa Meneghel vs. Britney Spears

 

Pesquisando outras formas de remix, me lembrei de uma fotógrafa israelense, Dina Goldstein, que ficou muito famosa no mundo todo com o projeto Fallen Princess, que mostra as princesas de Wall Disney em situações do mundo real e após o momento do “e então eles viveram felizes para sempre”.
Goldstein teve esta ideia de remix após observar meninas fascinadas pela perfeição das princesas.

Seguem as fotos de algumas princesas.
Branca de Neve cuidando de quatro filhos e o príncipe assistindo televisão

Cinderela desolada em uma mesa de bar

Jasmine lutando na crise do mundo árabe

E Pocahontas solteirona com seus 157 gatos

Esse ensaio prova que é possível criar algo totalmente original, utilizando elementos já existentes, sem plagiar e enfrentar um longo processo judicial.

“Remix tecnológico” em meio a guerra de patentes entre as fabricantes

Por Ana Ikeda

Desconcertados. É assim que nos sentimos diante da teoria de Kirby Ferguson, editor de vídeos que lançou o projeto “Everything is a Remix”, ou tudo é um remix. Geralmente associamos a palavra em inglês com música, como uma modificação feita a partir de uma produção original. Da minha adolescência, me lembro de escutar no rádio uma versão de “Every Breath You Take” feita pelo grupo Fugees – e que Sting, do Police, não ficou muito satisfeito com isso. Mas com o sucesso estrondoso da nova versão, a reclamação parou por aí. Com tantos exemplos na área musical, será que é possível transportar a teoria de Ferguson para outros setores, como o tecnológico?

iPad, da Apple, e Galaxy Tab, Samsung: cópia ou remix?

Antes de tudo, é preciso entender o que o editor chama de remix. Para ele, praticamente tudo na cultura pop nos últimos anos é algo do qual alguém “se apropriou, transformou e subverteu”. Essa tríade nos fornece uma guia para analisar os remixes. Um dos (profusos) exemplos utilizados por Ferguson é o filme Star Wars, de George Lucas, uma colagem de cenas de histórias e filmes, como “Flash Gordon”, a “Fortaleza Escondida” de Kurosawa, e alguns faroestes americanos.

A questão principal num remix, no entanto, é a forma com a qual o seu criador se apropria do conteúdo original. “Criação requer influência”, alerta Ferguson em um de seus vídeos sobre o projeto, afirmando que existe uma linha tênue entre o conteúdo original e o remixado.

Quando analisamos o mercado da tecnologia, a teoria de que tudo é um remix parece fazer “tudo se encaixar”. Como exemplo, temos os produtos da Apple. Seria o iPad um remix do iPhone? Na ocasião do seu lançamento, houve até quem dissesse aqui no Brasil que se tratava de um “iPhone de Itu”, brincadeira para indicar que o tablet era o smartphone grandão. Produtos de informática tem sido apropriados, transformados e subvertidos desde o início da indústria. Foi assim com os primeiros PCs pessoais (Altair, Lisa, Macinthosh, IBM PC), com a primeira geração de notebooks (do Dynabook de AlanKay ao ThinkPad da IBM), walkmans (e sua versão mais recente, os players digitais), celulares… e tablets.

A empresa de Steve Jobs sempre é vista como uma das mais inovadoras, mas o conceito de computadores ultraportáteis não é propriamente novo. Quem se lembra dos Palmtops? Ou até, voltando mais ao passado, das agendinhas eletrônicas? A própria Microsoft já falava no desenvolvimento de sistemas para tablets lá em 2001. Existe até mesmo um vídeo de 1994 explicando a ideia de um dispositivo para leitura de notícias bem semelhante ao do tablet. O trunfo da Apple com seu iPad está mais ligado à forma com que apresenta e vende os seus produtos do que à inovação. E, como propõe Ferguson, à influência do seu criador.

Até mesmo esse marketing é fonte para remixes. As apresentações feitas pelo fundador da Apple, geralmente icônicas, têm versões mescladas a “Star Wars”, “ A Fantástica Fábrica de Chocolates” e “The Human Centipede” (um filme bizarro).

Um problema em relação aos “remixes tecnológicos” e que nos faz voltar à teoria de Ferguson é a diferenciação com o plágio, a cópia pura. Processos entre empresas de tecnologia em relação a patentes são numerosos. A semelhança entre produtos até assusta. A Samsung, por exemplo, está sendo processada pela Apple nos EUA pela sua linha Galaxy de telefones e tablets, que infringiriam patentes de design do iPhone e iPad. O contra-ataque da empresa coreana foi processar a Apple também. Por quebrar anteriormente patentes dos seus produtos. A batalha judicial vai longe…

O consumidor, em meio a essa guerra entre gigantes, tem de decidir “quem seguir”. Voltamos então aos embaixadores das marcas, que vão defender por aí, com unhas e dentes, a sua empresa (e produtos favoritos) e certamente falarão em plágio. Mas se, como destaca Ferguson, “tudo o que fazemos é um ‘remake’ de criações existentes em nossas vidas e a vida dos outros”, um produto vai acabar se destacando em relação a outro pela…. influência do seu criador. Boa sacada, Steve Jobs!

Onipresença ocular

Por Tomer Savoia

Não existe ser humano invisível! Vivemos em estado de constante vigília, expostos, vulneráveis e impotentes.

São câmeras de segurança por todos os lados, celulares que gravam e tiram fotos em alta resolução, câmeras digitais, web cam e até a câmera escondida do Silvio Santos. Por onde vamos estamos cercados! No banco, no elevador, na rua… Enfim, vivemos em tempos de Big Brother “Orwelliano”.

Entretanto, se não bastasse nosso registro visual, capturado por incontáveis lentes e aparatos eletrônicos, ainda temos de nos submeter à propagação de nossa imagem mundo afora. Afinal, mais do que olhos com uma capacidade incrível de memória e armazenamento de dados, estas coisinhas são capazes de se conectar com o planeta. Assim, em segundos, uma foto tirada na Argentina, por exemplo, pode ser vista por alguém no Japão.

Nos comunicamos visualmente, em tempo real, independentemente da distância. Fazemos até sexo virtual! Entretanto, muitas vezes esta exibição não é consentida, autorizada. Num instante somos flagrados e este momento, eternizado pela tecnologia, é compartilhado com o mundo. Trilhando, muitas vezes, um caminho sem limites, sem volta. Por outro lado, também, não vale ser tão apocalíptico… afinal, se não por este conceito, como teríamos as vídeocassetadas?!

Enfim, essas são as regras do jogo: postou, agora já era. Não adianta tentar eliminar o que está na internet sem deixar vestígios. Algum desocupado, lá na China, já copiou isso e pode replicá-lo para quem quiser. Daniela Cicarelli e todo seu amor no mar, dinheiro na meia, circuito interno da escola em Realengo…

Entretanto, caro leitor, muitos vídeos despretensiosos ou não, amadores ou profissionais, têm uma audiência impressionante, pelos mais diversos motivos. Alguns, inclusive, ultrapasam o limite do “viral”. São epidêmicos!

E o mais interessante é que alguns nem são tão bons. Mas, com um pequeno toque de edição, são completamente descontextualizados e tomam uma nova forma, tendo como referência o material bruto. Criatividade para criar novas possibilidades e contar a mesma história de um jeito totalmente diferente. São justamente estes vídeos remixados que mensuram a relevância do original.

Dois casos crassos e de muita repercussão são “A queda do menino Edgar”, no México e a forma, digamos agitada, de torcer do argentino “Tano Pasman”, que viu seu clube, o River Plate, cair para a série B dos nossos hermanos.

O “sucesso” foi tanto que “A queda de Edgar” foi reproduzida no desenho animado do Chaves, é tópico da Wikipédia, o menino Edgar foi estrela de um comercial de TV e chamado à programas de entrevista.

O de Tano Pasman, mais recente, lhe rendeu a primeira página do jornal e uma entrevista exclusiva na ESPN Latina.

Os vídeos ganharam várias formas. Relacionadas a games e filmes clássicos, transformadas em músicas, deturpadas, alteradas… com alguns resultados engraçados e outros pífios. Há uma versão, inclusive, em que um vídeo é insertado no outro!

Confira abaixo os originais e algumas das suas MUITAS versões remixadas:

Queda de Edgar Original –

Tano Pasman Original – 

Tano Pasman e Queda de Egar – 

Queda de Egar versão Street Fighter – 

Queda de Egar versão Star Wars – 

Queda de Egar versão comercial de TV – 

Queda de Egar versão desenho do Chaves – 

Queda de Egar versão Senhor dos Anéis – 

Queda de Egar versão Mortal Kombat – 

Queda de Egar entrevista na TV – 

Tano Pasman versão Lost – 

Tano Pasman versão Rick Martin –

Tano Pasman versão remix eletrônico – 

Tano Pasman versão remix Conga –

Tano Pasman versão Hitler –

Tano Pasman entrevista na TV parte 1 e 2 –

Para Samuel Rosa, do Skank, fazer colagem com trechos de músicas é ‘molecagem’

Em setembro de 2008, fiquei atordoado após um atrito com a banda Skank. O encontro deveria ter sido uma entrevista com o grupo mineiro de pop rock, por conta do lançamento do oitavo disco do quarteto, “Estandarte”, no escritório da gravadora SonyBMG, no Rio de Janeiro. Antes do bate-papo com o grupo da qual sou fã (afinal, o título de primeiro show de rock da minha vida, em 1994, em Ipatinga-MG, ninguém tira dos caras), o vocalista Samuel Rosa tomou a palavra:

“Você é de Belo Horizonte? Você trabalhou lá em algum lugar? Rádio, site? Você que fez uma montagem com o Henrique? Aquilo que você fez foi molecagem. Quer saber? Não vou falar com você. Não tem clima. Você abusou da boa vontade do Henrique. O que você fez foi uma molecagem. Se você acha que a banda é desprezível, não falo com você.”

Toda defesa foi atropelada por Samuel, que levantou a voz, saiu da sala e foi um bocado hostil. Tentei argumentar também com o tecladista Henrique Portugal, que desviou o olhar e disse que tinha ficado chateado por ter “tirado suas falas do contexto”. A molecagem foi feita em 2006 para um projeto chamado Pílula Pop, programa então veiculado pelas rádios UFMG Educativa (104.5 FM, da mesma Belo Horizonte do Skank), PeloMundo.com.br e Universitária 870 AM (da Universidade Federal de Goiás). No dia da coletiva de imprensa do disco anterior deles, chamado “Carrossel”, em BH, entrevistei o Henrique. Disse que iria fazer uma matéria sobre músicas de outros artistas que se pareciam com as do Skank (e vice-versa). Ele, simpático, topou.

Escute a tal molecagem clicando aqui.

Músicas parecidas com as do Skank citadas, com suas respectivas “primas”:

Skank – “Mil Acasos”
Morrissey – “First of the gang to die”

Skank – “Supernova”
Beatles – “Tomorrow never knows”

Skank – “Dois lados”
Shakira – “Piez descalzos”

Carlinhos Brown – “A namorada”
Skank – “Garota nacional”

The Byrds – “The reason why”
Skank – “Um mais um”

Coldplay – “Yellow”
Skank – “O som da sua voz”

Por Braulio Vargas Lorentz